Saúde bucal e seus reflexos na atividade esportiva

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O desempenho dos atletas não deve prescindir de um exame odontológico cuidadoso e periódico

Desde início do século passado no Oriente, e nos últimos anos no Ocidente, a atividade esportiva vem se mostrando uma ferramenta de saúde pública muito útil, principalmente para os tratamentos de diminuição dos índices e da prevenção de doenças crônicas como osteoporose, diabetes, dislipidemia e hipertensão. O desenvolvimento da ciência focada no esporte, para desportistas amadores e profissionais, também tem como base o acompanhamento rotineiro para o aumento de rendimento e prevenção de lesões físicas ou psicológicas.

O treinamento esportivo consiste em repetições programadas e sistematizadas, com o objetivo de gerar um processo adaptativo contínuo, relacionado diretamente à captação de nutrientes, respiração eficiente, frequência cardíaca, vascularização melhorada, além da síntese de proteínas. Com os esforços físicos, a resposta para cargas variadas, sejam elas em forma de pesos (exercícios resistidos) ou corridas, é a alteração na homeostase.

O aumento progressivo de rendimento esportivo é oriundo de uma resultante multifatorial e entre os fatores implicados está a saúde geral do indivíduo, na qual se insere a saúde bucal. Constatou-se que o rendimento de um atleta pode ser reduzido, se ele apresentar algum distúrbio em sua saúde bucal.

Mário Trigo (1911-2008), considerado o pai da Odontologia do Esporte brasileiro, responde por trabalhos relevantes feitos com a seleção brasileira de futebol e foi o primeiro a mencionar a importância de uma “boca limpa de patógenos” para o bom rendimento esportivo. Sendo assim, a salvaguarda do desempenho do atleta não pode prescindir de um minucioso exame odontológico periódico, que atua de forma preventiva, além de proporcionar o tratamento de eventuais doenças.

O sistema estomatognático oferece inúmeras propostas de estudos auxiliares na ciência esportiva. Tal qual o sangue, a saliva é apontada como uma fonte potencial de biomarcadores de desempenho na atividade física. Nos avanços da ciência esportiva, os métodos preventivos de lesões e de perda de rendimento passam a analisar biomarcadores salivares de desempenho, que sofrem alterações de concentração durante a atividade física.

A utilização da saliva na execução de análises do rendimento esportivo permite obter resultados com segurança. A coleta salivar é não invasiva e pode facilmente ser realizada em situações de treinos e competições, com maior facilidade do que a coleta sanguínea. Sendo muito simples, pode ser realizada pelo próprio atleta, e armazenada em caixa térmica com gelo.

A partir da saliva podemos avaliar fluxo, atividade da alfa amilase, concentração de proteínas totais, óxido nítrico, variações de pH e hormônios – como cortisol e testosterona. As respostas a inúmeras variações metabólicas durante a atividade física podem ser verificadas na “quebra” da homeostase, com o estresse oxidativo de séries de exercícios no sistema osteomuscular, cardiorrespiratório e vascular. Esses sistemas recebem e emitem sinais para adequações fisiológicas, como hipertrofias musculares, remodelação óssea, diminuição da resistência vascular periférica que leva à diminuição da pressão arterial, fortalecimento do músculo estriado cardíaco, um retorno ao estado de saúde, por assim dizer. Esses eventos não ocorrem sem a presença de mediadores, e os hormônios fazem parte deste rol de elementos que, em concentrações diminutas, medeiam adaptações fundamentais na resposta fisiológica da atividade física.

Estabelece-se, dessa forma, uma íntima relação entre a cavidade oral, a saúde e o acompanhamento da evolução física do atleta, trazendo o especialista em odontologia do esporte para o quadro de profissionais da saúde que devem monitorar o atleta.

Fonte: Revista do CROSP nº 61